Dez anos sem Cláudio Pastro: Frei Sidney Machado e Wilma Tommaso refletem sobre o legado espiritual e artístico de um dos grandes nomes da arte sacra brasileira
Em entrevista a Rodrigo Mazutti, os convidados destacam a contribuição de Cláudio Pastro para a renovação da arte sacra no Brasil, sua profunda relação com as Sagradas Escrituras e a influência do Concílio Vaticano II em uma obra que continua a inspirar a Igreja.
Por Leticia
Publicado em 30/10/2026 21:00 • Atualizado 30/10/2026 21:01
Cúpula do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida.
O interior da Basílica Nacional de Aparecida, segunda maior basílica do mundo, é de Cláudio Pastro.
Dez anos após a morte de Cláudio Pastro, um dos mais importantes nomes da arte sacra contemporânea brasileira, seu legado permanece vivo nas igrejas, nos santuários e nas comunidades que encontram em suas obras uma expressão da fé cristã.
Em entrevista conduzida pelo jornalista Rodrigo Mazutti, o Frei Sidney Machado e a professora Wilma Tommaso refletiram sobre a trajetória do artista, sua contribuição para a renovação da linguagem visual da Igreja Católica e a dimensão espiritual de uma produção artística profundamente enraizada na liturgia e na Palavra de Deus.
A conversa aconteceu no contexto das reflexões sobre o décimo aniversário de falecimento de Pastro, recordado em 19 de outubro de 2026, e apresentou não apenas uma análise de sua obra, mas também testemunhos pessoais sobre sua espiritualidade, sua criatividade e sua compreensão da missão evangelizadora da arte.
Cláudio Pastro: um artista que ajudou a transformar a arte sacra brasileira
Ao recordar a importância do artista, Wilma Tommaso destacou a dimensão de sua produção e a originalidade de sua linguagem.
Segundo a professora, Pastro deixou sua marca em mais de 350 igrejas, contribuindo para uma transformação significativa na maneira de conceber os espaços sagrados no Brasil.
Em um país profundamente marcado pela herança barroca, sua proposta artística representou uma mudança de perspectiva, aproximando a arquitetura e a iconografia católicas das tradições cristãs do primeiro milênio.
Para Wilma, essa transformação não nasceu simplesmente de uma busca por inovação estética, mas de uma profunda compreensão do Concílio Vaticano II, especialmente da constituição Sacrosanctum Concilium, dedicada à Sagrada Liturgia.
Pastro compreendeu que a renovação litúrgica exigia também uma reflexão sobre o espaço celebrativo, a disposição dos elementos sagrados e a função das imagens na vida da comunidade.
Sua obra procurou recuperar elementos da tradição cristã antiga e apresentá-los em uma linguagem capaz de dialogar com os fiéis contemporâneos.
"Uma espécie de João Batista da Igreja do Brasil"
Uma das reflexões mais significativas da entrevista foi apresentada por Frei Sidney Machado, que comparou simbolicamente a missão artística de Cláudio Pastro à figura de São João Batista.
"Eu penso no Cláudio Pastro como uma espécie de João Batista da Igreja do Brasil", afirmou o religioso.
Ao desenvolver a comparação, Frei Sidney explicou que Pastro contribuiu para abrir caminhos a uma expressão artística capaz de comunicar a fé cristã de maneira eloquente ao povo brasileiro.
Segundo ele, a Igreja não deve considerar a arte sacra como uma realidade limitada a determinados períodos históricos.
Ao longo dos séculos, diferentes gerações de cristãos expressaram sua fé por meio da arquitetura, da pintura, da escultura e de outras manifestações artísticas, sempre em diálogo com a cultura de seu tempo.
Para o frei, os cristãos do terceiro milênio também possuem a responsabilidade de traduzir sua experiência de fé em uma linguagem que corresponda à realidade em que vivem.
"Ser cristão não é estar fixado em épocas específicas. Ser cristão não implica uma cultura determinada. Ser cristão é viver o Evangelho na realidade onde estamos inseridos", explicou.
Nesse sentido, o legado de Pastro ultrapassa a dimensão estética e se apresenta como um convite à Igreja brasileira para reconhecer e valorizar sua própria identidade cultural, sem perder a fidelidade à tradição cristã.
O altar é Cristo: a centralidade do mistério pascal
Outro tema importante da entrevista foi a concepção dos espaços litúrgicos e a centralidade do altar na celebração eucarística.
Wilma Tommaso recordou um episódio envolvendo Cláudio Pastro e o projeto de uma igreja dedicada a Santa Teresinha.
Segundo seu relato, diante da sugestão de colocar a imagem da santa no lugar central da abside, o artista explicou que aquele espaço deveria manifestar a centralidade de Cristo, fonte de toda santidade.
A professora destacou que essa compreensão orientava profundamente o trabalho de Pastro, que procurava organizar os espaços sagrados a partir do significado teológico da liturgia.
Frei Sidney aprofundou a reflexão, recordando que o altar é símbolo de Cristo, pedra fundamental da Igreja.
"O altar é Cristo. Cristo é a pedra", afirmou.
O religioso explicou que a unidade do altar expressa a unidade do mistério celebrado pela comunidade cristã.
Para ele, a renovação litúrgica promovida pelo Concílio Vaticano II ajudou a recuperar uma consciência presente na tradição da Igreja dos primeiros séculos: a centralidade do mistério pascal de Cristo na vida da comunidade reunida para a Eucaristia.
O Concílio Vaticano II e o retorno às fontes da tradição cristã
Durante a entrevista, Frei Sidney também apresentou uma reflexão sobre o significado histórico e teológico do Concílio Vaticano II.
Segundo o religioso, o Concílio deve ser compreendido simultaneamente como ponto de chegada e ponto de partida.
Ponto de chegada de um longo processo de estudos bíblicos, patrísticos e litúrgicos, desenvolvido especialmente a partir do século XIX, e ponto de partida para uma renovada compreensão da vida e da missão da Igreja no mundo contemporâneo.
O frei destacou que a redescoberta dos escritos dos Padres da Igreja e das antigas tradições litúrgicas permitiu aprofundar a compreensão da fé cristã.
Dessa maneira, a renovação conciliar não representaria um abandono da tradição, mas uma oportunidade de reencontro com suas fontes mais antigas.
A reflexão foi relacionada diretamente à obra de Cláudio Pastro, que encontrou inspiração na arte paleocristã, bizantina e românica, ao mesmo tempo que dialogou com expressões artísticas modernas.
Wilma Tommaso recordou, por exemplo, a admiração de Pastro por artistas como Henri Matisse, cuja linguagem visual também contribuiu para suas pesquisas estéticas.
Essa combinação entre tradição e contemporaneidade tornou-se uma das características mais marcantes de sua produção.
Igrejas que anunciam a vida: a importância das cores e da beleza
Um dos momentos mais interessantes da conversa surgiu quando Rodrigo Mazutti apresentou uma experiência relacionada à arquitetura de uma igreja em Campinas.
O jornalista recordou o comentário de um arcebispo que, ao conhecer o interior de uma matriz paroquial marcado por paredes brancas e poucos elementos artísticos, teria considerado o espaço pouco expressivo.
A observação abriu caminho para uma reflexão sobre a importância da beleza, das cores e dos símbolos na arquitetura religiosa.
Frei Sidney explicou que a celebração cristã não pode ser compreendida apenas a partir da dimensão do sofrimento de Cristo, pois o mistério pascal encontra sua plenitude na Ressurreição.
"Nós celebramos a vitória da vida sobre a morte", destacou.
O religioso observou que as manifestações culturais brasileiras, como as festas populares, revelam uma sensibilidade marcada pela abundância de cores, formas e expressões de alegria.
Sem sugerir que os templos reproduzam literalmente essas manifestações, Frei Sidney defendeu que os espaços celebrativos sejam capazes de transmitir esperança, acolhimento e a alegria própria da fé pascal.
Para ele, a igreja construída em pedra deve expressar a realidade espiritual da comunidade que nela se reúne.
A beleza do espaço sagrado, portanto, não constitui um elemento meramente decorativo, mas pode contribuir para que os fiéis reconheçam a dignidade da celebração e a presença de uma comunidade viva.
Wilma Tommaso recorda a amizade e a espiritualidade de Cláudio Pastro
Na parte final da entrevista, Wilma Tommaso compartilhou lembranças pessoais de sua convivência com Cláudio Pastro.
A professora recordou uma visita à sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Brasília, onde identificou um painel do artista inspirado no livro do Apocalipse.
O episódio serviu para destacar uma das características mais profundas de sua obra: a capacidade de transformar a Sagrada Escritura em linguagem visual.
Segundo Wilma, dois livros bíblicos exerciam especial fascínio sobre Pastro: o Cântico dos Cânticos e o Apocalipse.
A professora ressaltou que o artista possuía grande familiaridade com as Escrituras e com a tradição patrística, conhecimentos que alimentavam sua criatividade e sua espiritualidade.
Também recordou que Pastro era oblato e cultivava uma intensa vida de oração.
Em um testemunho marcado pela emoção, Wilma expressou sua gratidão pela amizade que desenvolveu com o artista e pelas oportunidades de convivência pessoal e familiar.
"Agradeço a Deus demais ter tido a bênção de ter convivido com ele, de ter tido a amizade dele", declarou.
Para a professora, a passagem dos anos não diminuiu a importância de Pastro. Pelo contrário, sua obra continua oferecendo novas possibilidades de interpretação e aprofundamento espiritual.
A iconografia como Sagrada Escritura apresentada em cores
Ao concluir a entrevista, Frei Sidney Machado destacou a estreita relação entre a arte cristã e a Palavra de Deus.
O religioso recordou uma compreensão tradicional da iconografia, segundo a qual as imagens sagradas podem ser entendidas como a Escritura apresentada em cores.
Essa perspectiva permite compreender por que a obra de Cláudio Pastro ultrapassa a função decorativa.
Suas imagens procuram estabelecer uma ligação entre a Palavra proclamada, o mistério celebrado na liturgia e a experiência espiritual dos fiéis.
Para Frei Sidney, essa capacidade de traduzir a fé em imagens exige uma profunda intimidade com a Sagrada Escritura, construída por meio do estudo, da meditação e da oração.
O religioso ressaltou que a contribuição de Pastro à Igreja brasileira também deve ser reconhecida como um legado espiritual.
Por meio de suas obras, o artista ajudou comunidades a contemplar visualmente os mistérios da fé e a redescobrir a riqueza simbólica da tradição cristã.
Um legado que continua a evangelizar
Dez anos após sua morte, Cláudio Pastro permanece como uma referência para a reflexão sobre a arte sacra, a arquitetura religiosa e a renovação litúrgica no Brasil.
A entrevista de Rodrigo Mazutti com Frei Sidney Machado e Wilma Tommaso demonstrou que seu legado não pode ser compreendido apenas pela quantidade de obras realizadas ou pela originalidade de sua linguagem artística.
Sua contribuição está também na maneira como procurou colocar a beleza a serviço da fé, aproximando a tradição da Igreja das necessidades espirituais do homem contemporâneo.
Ao recuperar elementos da arte cristã antiga e reinterpretá-los para a realidade brasileira, Pastro colaborou para que igrejas e santuários se tornassem espaços de contemplação, catequese e encontro com o mistério de Cristo.
Mais do que deixar imagens nas paredes dos templos, Cláudio Pastro ajudou a recordar que a arte sacra tem uma missão essencial: anunciar, por meio da beleza, a esperança do Evangelho e a vitória de Cristo sobre a morte.
Reportagem baseada na entrevista concedida por Frei Sidney Machado e Wilma Tommaso ao jornalista Rodrigo Mazutti, por ocasião dos dez anos de falecimento de Cláudio Pastro, em outubro de 2026.