Santuário do Bom Jesus da Lapa celebra 335 anos de fé, romarias e evangelização
Em entrevistas à Rádio e TV Fé e Luz, o reitor padre Roque Silva Alves e a jornalista Tamires Batista apresentaram a história do santuário, a força da devoção popular e os desafios de comunicar a fé a milhões de romeiros
Com 335 anos de história, o Santuário do Bom Jesus da Lapa, na Bahia, permanece como um dos principais centros de peregrinação e espiritualidade do Brasil. A trajetória do local, a organização de suas grandes festas e o trabalho de comunicação desenvolvido para aproximar os devotos foram apresentados em entrevistas conduzidas por André Augusto para a Rádio e TV Fé e Luz.
Participaram do programa especial o padre Roque Silva Alves, reitor do santuário, e a jornalista Tamires Batista, integrante da equipe de comunicação. Os entrevistados mostraram como tradição, acolhimento, planejamento e recursos digitais se unem para manter viva uma devoção iniciada no século XVII.
Devoção começou em 1691
A história do Santuário do Bom Jesus da Lapa começou em 1691, quando o peregrino português Francisco de Mendonça Mar chegou à região do Rio São Francisco e estabeleceu um eremitério e um pequeno oratório. Posteriormente, o fundador tornou-se sacerdote e assumiu a função de primeiro capelão do local.
A devoção ao Bom Jesus da Lapa é anterior a importantes manifestações religiosas brasileiras, como a devoção a Nossa Senhora Aparecida, iniciada em 1717, e ao Senhor do Bonfim, difundida a partir do século XVIII.
Ao longo de mais de três séculos, o local tornou-se destino de romeiros provenientes de diferentes regiões do país. A chegada desses peregrinos é apontada pelo padre Roque como um dos momentos mais emocionantes da rotina do santuário.
Cantos, lágrimas, orações e gestos espontâneos revelam uma fé que não teme ser demonstrada publicamente. Durante a novena, cartas enviadas pelos devotos também são lidas para compartilhar testemunhos, agradecimentos e relatos de graças alcançadas.
Santuário é uma “fonte no deserto”
Padre Roque Silva Alves tem 58 anos e soma 34 anos de ordenação sacerdotal como missionário redentorista. Ele já havia exercido a função de reitor do santuário antes de servir durante nove anos como vice-provincial. Retornou à reitoria em 2023 e atualmente cumpre o terceiro ano de seu segundo mandato.
Para o sacerdote, o santuário pode ser comparado a uma “fonte no deserto”, onde os peregrinos encontram os sacramentos da Eucaristia e da reconciliação, renovando suas forças para continuar a caminhada cristã.
A missão não termina quando o romeiro deixa a cidade. A expectativa é que cada visitante leve a experiência vivida na Lapa para sua paróquia, sua família e sua comunidade, mantendo-se comprometido com a evangelização e com o trabalho pastoral.
O santuário permanece aberto diariamente, das 5h às 21h, com uma programação religiosa constante. Embora os peregrinos estejam presentes durante todo o ano, o movimento cresce principalmente entre julho e meados de novembro.
Três grandes festas movimentam o calendário
O calendário anual possui três celebrações de maior destaque. A Festa do Bom Jesus acontece de 28 de julho a 6 de agosto. Em seguida, o santuário realiza a Festa de Nossa Senhora da Soledade, de 8 a 15 de setembro. Entre 9 e 12 de outubro, ocorre a Festa de Nossa Senhora Aparecida.
Cada celebração possui características próprias. A Festa do Bom Jesus é marcada pela grande participação popular e pelas manifestações intensas de devoção. Já a Festa de Nossa Senhora da Soledade propõe uma experiência mais silenciosa e contemplativa, centrada nas dores de Maria.
A imagem de Nossa Senhora da Soledade venerada no santuário possui um elemento particular: um lenço com o rosto de Jesus. O símbolo recorda o gesto de Verônica e expressa a solidariedade oferecida a Maria durante o sofrimento aos pés da cruz.
Tamires Batista explicou que a festividade é a segunda maior realizada pelo santuário. Sua programação inclui o septenário das dores de Maria, convidando os participantes a refletir sobre a solidão, a compaixão e a presença materna de Nossa Senhora.
A celebração de Nossa Senhora Aparecida, por sua vez, reúne especialmente os devotos da região que não conseguem viajar ao Santuário Nacional, no interior de São Paulo. Bom Jesus da Lapa possui uma imagem fac-símile de Nossa Senhora Aparecida, doada pelo próprio Santuário Nacional, e promove também encenações realizadas por um grupo de teatro local.
Organização começa meses antes
A realização das grandes festividades exige uma complexa operação logística. O planejamento tem início ainda no final do ano anterior ou nos primeiros meses do ano da celebração.
Além da definição dos temas, da identidade visual e dos materiais de divulgação, a preparação envolve órgãos públicos, forças de segurança e diferentes setores da administração municipal.
Para a Festa de Nossa Senhora da Soledade, por exemplo, o trabalho conta com a participação da Polícia Militar, Polícia Civil, Guarda Municipal e das secretarias de Saúde, Turismo e Meio Ambiente. Essa articulação busca garantir segurança, atendimento médico, organização do trânsito, limpeza e infraestrutura para receber os peregrinos.
Jornalismo exige técnica, fé e sensibilidade
Natural da zona rural de Bom Jesus da Lapa, Tamires Batista descobriu o interesse pela comunicação ainda na infância. Na época, sua família não possuía acesso à energia elétrica, e os livros e o rádio se tornaram suas principais fontes de informação e inspiração.
Quando teve acesso a um aparelho MP4, passou a gravar programas de rádio, elaborar roteiros e praticar locução. Mais tarde, transformou aquele interesse em profissão e concluiu sua formação em Jornalismo, em 2016, pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.
Além da formação acadêmica, Tamires considera fundamentais as experiências adquiridas por meio do voluntariado e da atuação pastoral. O contato direto com a comunidade contribuiu para que desenvolvesse uma comunicação mais atenta às histórias, dificuldades e manifestações de fé dos devotos.
Segundo a jornalista, cobrir uma grande festa religiosa não depende somente de conhecimento técnico. Em meio às multidões, é necessário observar os gestos dos romeiros e reconhecer as histórias que merecem ser contadas.
O trabalho busca equilibrar o compromisso com os fatos e a missão evangelizadora. Isso significa preservar os depoimentos sem distorções, respeitar a experiência dos entrevistados e produzir conteúdos responsáveis, especialmente para as plataformas digitais.
Pandemia fortaleceu a romaria virtual
A pandemia de Covid-19 representou um dos maiores desafios enfrentados pela comunicação do santuário. Impedidos de participar presencialmente das celebrações, muitos devotos passaram a depender completamente das transmissões digitais.
Diante dessa realidade, foi desenvolvido o conceito de “Romaria Virtual”. As celebrações, orações e momentos devocionais passaram a ser transmitidos com maior intensidade, mantendo os fiéis espiritualmente próximos mesmo durante o isolamento.
A experiência transformou definitivamente a atuação digital do santuário. Atualmente, as transmissões continuam sendo essenciais para os idosos, enfermos e peregrinos que vivem longe da Bahia ou que não possuem condições de viajar.
As missas e celebrações podem ser acompanhadas pelo canal TV Bom Jesus no YouTube. O santuário também mantém perfis no Instagram e no Facebook para divulgar horários, notícias e informações destinadas aos romeiros.
Esperança move o trabalho de comunicação
Para Tamires Batista, a esperança é o principal combustível de seu trabalho. A jornalista afirmou que deseja produzir conteúdos capazes de gerar impacto positivo e fortalecer as pessoas que acompanham o santuário.
Ela também destacou a crescente presença das mulheres na comunicação, nas pastorais e em diferentes serviços da Igreja. Sua mensagem é para que cada mulher reconheça seus dons e os coloque à disposição da comunidade, independentemente da função exercida.
Ao falar sobre seus projetos futuros, Tamires revelou o desejo de escrever livros relacionados à sua história familiar e à fé popular. Entre os temas que pretende registrar estão a trajetória de um bisavô que atuou como professor leigo e os testemunhos dos romeiros que conheceu ao longo dos anos.
Vocação é chamado para servir
Realizada durante o mês vocacional, a entrevista com o padre Roque também abordou as diferentes formas de serviço na Igreja. Agosto é dedicado à vocação sacerdotal, à vida religiosa consagrada, à família, aos leigos e aos catequistas.
Segundo o reitor, Deus chama, prepara e envia cada pessoa para uma missão. Esse chamado pode ser vivido no sacerdócio, na vida consagrada, na família, na atuação profissional ou no serviço à sociedade.
O sacerdote ressaltou a necessidade de convidar jovens e adultos a participarem dos ministérios e das comunidades religiosas. Para ele, despertar novas vocações é essencial para assegurar a continuidade da missão evangelizadora.
Fé que ultrapassa distâncias
No encerramento do programa, padre Roque agradeceu à Rádio e TV Fé e Luz pela parceria na divulgação das festividades e concedeu uma bênção aos ouvintes, telespectadores e romeiros. O sacerdote pediu saúde, paz e prosperidade, recordando a expressão popular segundo a qual “o Bom Jesus na Lapa a ninguém nega favor”.
André Augusto também agradeceu ao padre William Betônio pelo acolhimento oferecido à equipe e a Tamires Batista pela colaboração na realização das entrevistas.
Ao reunir memória, peregrinação e comunicação, o Santuário do Bom Jesus da Lapa demonstra que uma devoção iniciada há 335 anos continua capaz de atravessar gerações e distâncias. Seja presencialmente, diante da gruta, ou por meio de uma transmissão digital, os romeiros permanecem unidos por uma mesma experiência de fé, esperança e confiança no Bom Jesus.