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“O pobre também tem direito a uma igreja bonita”: Eduardo Faust e Sunniva Geuer defendem a beleza e a valorização da arquitetura sacra
Em entrevista ao jornalista Rodrigo Mazutti durante o III OPUS, em Campinas, arquiteto e organizadora do evento destacam que o planejamento profissional, a arte sacra e os vitrais podem estar ao alcance de pequenas comunidades, conciliando beleza, responsabilidade financeira e respeito à liturgia.
Publicado em 30/10/2026 21:08 • Atualizado 30/10/2026 21:43
Tecnologia
Vitral da Vitrais Ton Geuer, com sede em Campinas/SP

Afinal, pra que investir na beleza de um templo, sendo que o Concílio Vaticano II fala para construir igrejas de paredes brancas. Oops! Será que o Vaticano II fala isso mesmo?

A beleza dos templos católicos, a importância da arquitetura sacra e os desafios enfrentados pelas comunidades na construção e reforma de suas igrejas foram alguns dos temas abordados em entrevista concedida ao jornalista Rodrigo Mazutti pelo arquiteto e urbanista Eduardo Faust e por Sunniva Geuer Simmelink, diretora da Vitrais Ton Geuer e uma das organizadoras do III OPUS — Feira e Seminário de Construção e Arquitetura Religiosa.

Realizado nos dias 19 e 20 de outubro de 2026, no Golden Park Campinas Viracopos, em Campinas (SP), o encontro reuniu profissionais especializados em arquitetura religiosa, arte sacra, liturgia, engenharia e conservação de espaços destinados à fé.

Durante a conversa, os entrevistados defenderam que a construção de uma igreja não deve ser compreendida apenas como uma obra convencional, mas como um projeto que exige conhecimento técnico, sensibilidade artística e atenção às necessidades espirituais e financeiras de cada comunidade.

Eduardo Faust e a valorização da arquitetura sacra no Brasil

Com mais de duas décadas de atuação profissional, Eduardo Faust recordou o início de sua trajetória na arquitetura sacra e as dificuldades encontradas em um período no qual ainda eram poucos os escritórios brasileiros dedicados especificamente ao planejamento de igrejas.

Formado em 2004, o arquiteto realizou seu primeiro projeto de igreja em 2007 e passou a divulgar seus trabalhos por meio de blogs e, posteriormente, das redes sociais.

Segundo Faust, essa divulgação ajudou a despertar o interesse pela arquitetura sacra e a incentivar o surgimento de novos profissionais especializados.

O arquiteto destacou que, ao longo dos últimos anos, o setor passou por uma transformação significativa, com a ampliação de escritórios e empresas dedicados à construção e reforma de espaços religiosos.

Atualmente, sua trajetória reúne mais de 300 projetos de igrejas, catedrais, santuários e mosteiros, distribuídos por mais de 200 cidades brasileiras.

Apesar dos avanços, Faust considera que ainda existe um longo caminho para conscientizar paróquias e comunidades sobre a importância de contratar profissionais qualificados.

Durante a entrevista, ele estimou que grande parte dos projetos religiosos no Brasil ainda é realizada sem o acompanhamento adequado de arquitetos ou engenheiros. O percentual mencionado pelo profissional constitui uma estimativa pessoal, e não um levantamento estatístico apresentado durante a conversa.

Construir uma igreja bonita precisa ser caro?

Uma das questões centrais da entrevista foi a relação entre o investimento financeiro e a qualidade arquitetônica das igrejas.

Rodrigo Mazutti questionou Eduardo Faust sobre a percepção de que a arquitetura sacra seria necessariamente dispendiosa, especialmente para comunidades que enfrentam dificuldades financeiras.

O arquiteto explicou que o custo de uma construção depende de fatores como dimensão, fundações, estrutura, cobertura e materiais utilizados.

Segundo ele, a contratação de um profissional especializado pode contribuir justamente para o controle dessas despesas, permitindo escolhas mais adequadas e evitando desperdícios.

Faust ressaltou que a experiência com paróquias de diferentes realidades econômicas permite desenvolver projetos que conciliem beleza, durabilidade e responsabilidade financeira.

Para o arquiteto, uma igreja bem planejada não precisa apresentar acabamentos excessivamente caros. O fundamental é que os materiais sejam escolhidos com inteligência e que o projeto respeite as possibilidades da comunidade.

A ausência de planejamento, por outro lado, pode resultar em reformas sucessivas e gastos que poderiam ter sido evitados.

“O pobre também tem direito a uma coisa bem-feita”

Um dos momentos mais significativos da entrevista ocorreu quando Rodrigo Mazutti apresentou uma crítica frequentemente dirigida à arquitetura sacra: a ideia de que investir na beleza das igrejas seria uma atitude elitista.

O jornalista questionou se a preocupação com vitrais, elementos artísticos e projetos arquitetônicos elaborados não poderia ser interpretada como um luxo incompatível com a realidade de comunidades mais pobres.

Eduardo Faust respondeu que essa visão pode produzir uma contradição.

Para ele, considerar a beleza um privilégio das comunidades financeiramente favorecidas significa, na prática, negar às populações de menor renda o direito de possuir espaços religiosos dignos e bem construídos.

“O pobre também tem direito a fazer uma coisa bem-feita”, afirmou.

O arquiteto defendeu que a preocupação com os custos é legítima e necessária, mas não deve servir como justificativa para abandonar a qualidade da construção.

A solução, segundo ele, está no planejamento racional, na escolha adequada dos materiais e na contratação de profissionais que compreendam a realidade das comunidades.

O Evangelho e a oferta do melhor a Deus

Durante a reflexão sobre a beleza dos templos, Eduardo Faust também recorreu a uma passagem do Evangelho para apresentar sua compreensão cristã da arte sacra.

O arquiteto mencionou o episódio da unção de Jesus em Betânia, quando o uso de um perfume precioso provocou questionamentos sobre o valor daquela oferta.

A passagem, narrada nos Evangelhos, apresenta uma reflexão sobre o amor, a generosidade e o reconhecimento da dignidade de Cristo.

Faust relacionou o episódio à importância de dedicar cuidado e atenção aos espaços destinados ao culto divino.

Sua argumentação não procurou afastar a responsabilidade social das comunidades, mas destacar que a preocupação com os mais necessitados não precisa ser colocada em oposição à valorização da beleza na vida religiosa.

Na perspectiva apresentada pelo arquiteto, a construção de uma igreja deve buscar o equilíbrio entre os recursos disponíveis, a dignidade do espaço celebrativo e o respeito à comunidade que nele se reúne.

Sunniva Geuer: a arte dos vitrais também pode chegar às pequenas comunidades

A entrevista também contou com a participação de Sunniva Geuer Simmelink, diretora da Vitrais Ton Geuer, empresa especializada na produção de vitrais, e uma das responsáveis pela organização do III OPUS.

Durante a conversa, Sunniva explicou que o trabalho com vitrais religiosos exige sensibilidade para compreender as condições financeiras de cada paróquia.

Segundo ela, não faria sentido apresentar uma proposta de elevado custo a uma comunidade que não dispõe dos recursos necessários para executá-la.

Por isso, a empresa procura adaptar os projetos, simplificando determinadas soluções sem abandonar a qualidade artística.

A profissional destacou que pequenas comunidades também podem contar com vitrais autênticos, desenvolvidos conforme suas possibilidades econômicas.

Sunniva explicou que a técnica utilizada pela empresa envolve vidro colorido e chumbo, permitindo a criação de composições decorativas e figurativas.

Entre os temas possíveis estão imagens dos santos padroeiros, cenas bíblicas e representações da Via-Sacra.

Dessa maneira, os vitrais podem contribuir não apenas para a beleza dos templos, mas também para a transmissão visual da fé e a valorização da identidade espiritual de cada comunidade.

A arte sacra como expressão da fé e da identidade comunitária

Ao longo da entrevista, ficou evidente que a arquitetura religiosa não pode ser reduzida à construção de paredes e coberturas destinadas a abrigar celebrações.

Uma igreja possui características próprias, relacionadas à liturgia, à oração e à experiência comunitária dos fiéis.

Nesse contexto, os elementos artísticos desempenham uma função que ultrapassa a decoração.

Vitrais, imagens, mobiliário litúrgico e soluções arquitetônicas podem contribuir para a compreensão dos mistérios celebrados e para a criação de um ambiente favorável ao recolhimento e à oração.

A preocupação apresentada pelos entrevistados também envolve a durabilidade desses elementos.

Rodrigo Mazutti chamou a atenção para situações em que soluções inicialmente mais baratas acabam exigindo substituições e reparos frequentes, aumentando os custos ao longo dos anos.

Eduardo Faust concordou com a importância de considerar o investimento em longo prazo, ressaltando que decisões tomadas sem planejamento podem comprometer a economia pretendida.

III OPUS reúne profissionais dedicados à construção e à preservação de igrejas

A entrevista aconteceu durante a terceira edição do OPUS — Feira e Seminário de Construção e Arquitetura Religiosa, evento voltado à aproximação entre profissionais, empresas, representantes religiosos e pessoas envolvidas na construção, reforma e preservação de templos.

A programação de 2026 abordou assuntos como arquitetura litúrgica, arte sacra, vitrais, mosaicos, acústica, sonorização, legislação e novas tecnologias aplicadas aos espaços religiosos.

Eduardo Faust participou como coordenador técnico e palestrante, enquanto Sunniva Geuer integrou a organização e apresentou conhecimentos relacionados à tradição e à produção de vitrais.

O encontro também procurou conscientizar padres, religiosos, arquitetos e integrantes de comissões de obras sobre a importância de buscar orientação especializada antes de iniciar intervenções em igrejas.

Segundo Sunniva, a proposta é aproximar as comunidades de empresas e profissionais capazes de oferecer soluções compatíveis com suas necessidades.

Durante a entrevista, a organizadora também antecipou os planos para a quarta edição do OPUS, prevista para 2028.

A beleza da Casa de Deus ao alcance de todos

A conversa conduzida por Rodrigo Mazutti trouxe uma reflexão importante sobre a relação entre fé, beleza e responsabilidade na administração dos recursos das comunidades católicas.

Ao defender a presença de profissionais especializados na construção de igrejas, Eduardo Faust destacou que o planejamento pode representar uma forma de economia e de respeito aos esforços dos fiéis que contribuem para a realização dessas obras.

Sunniva Geuer, por sua vez, demonstrou como a adaptação de projetos artísticos pode ampliar o acesso aos vitrais e a outros elementos tradicionais da arquitetura religiosa.

As reflexões apresentadas durante a entrevista apontam para uma compreensão da arte sacra que não a considera privilégio de grandes catedrais ou santuários.

Mesmo uma pequena comunidade pode buscar um espaço digno, belo e adequado à celebração da fé, desde que suas decisões sejam orientadas por planejamento, conhecimento e responsabilidade.

A beleza da Casa de Deus, conforme defenderam os entrevistados, não precisa estar reservada aos templos mais ricos. Ela também pode fazer parte da realidade das comunidades simples, nas quais a fé se manifesta diariamente por meio da oração, da participação litúrgica e do esforço coletivo dos fiéis.

Reportagem baseada na entrevista concedida por Eduardo Faust e Sunniva Geuer Simmelink ao jornalista Rodrigo Mazutti durante o III OPUS — Feira e Seminário de Construção e Arquitetura Religiosa, realizado em Campinas, em outubro de 2026.

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