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Arte sacra entre tradição e modernidade: Irmã Jeydjane Gomes e Leonardo Posenato defendem harmonia entre arquitetura, liturgia e fé
Em entrevista ao jornalista Rodrigo Mazutti durante o III OPUS, em Campinas, religiosa arquiteta e mosaicista destacam a importância do Concílio Vaticano II, da tradição artística cristã e do planejamento integrado na construção e reforma de igrejas católicas.
Por André Moreira Augusto
Publicado em 30/10/2026 21:41
Tecnologia

A relação entre a arte sacra, a arquitetura religiosa e a celebração da fé foi o tema central de uma entrevista conduzida pelo jornalista Rodrigo Mazutti com a Irmã Jeydjane Gomes, religiosa das Irmãs Pias Discípulas do Divino Mestre (PDDM), e o arquiteto e mosaicista Leonardo Posenato.

A conversa aconteceu durante o III OPUS — Feira e Seminário de Construção e Arquitetura Religiosa, realizado nos dias 19 e 20 de outubro de 2026, no Golden Park Campinas Viracopos, em Campinas (SP).

O encontro reuniu profissionais e especialistas dedicados à construção, reforma e preservação de igrejas, promovendo reflexões sobre a importância de integrar conhecimentos arquitetônicos, artísticos, técnicos e litúrgicos.

Durante a entrevista, os convidados destacaram que a beleza de um templo católico não depende apenas da qualidade individual de suas obras de arte, mas também da harmonia entre todos os elementos que compõem o espaço celebrativo.

Leonardo Posenato: a tradição cristã como fonte de inspiração

Com mais de duas décadas de experiência na produção de mosaicos, Leonardo Posenato apresentou sua trajetória artística e explicou a influência das antigas tradições cristãs sobre seu trabalho.

O artista estudou durante três anos na Scuola Mosaicisti del Friuli, instituição italiana especializada na formação de mosaicistas, concluindo seus estudos em 2001. Posteriormente, formou-se em Arquitetura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em 2010.

Sua produção artística encontra inspiração especialmente nos mosaicos romanos, bizantinos e medievais, cujas técnicas, composições e simbolismos marcaram profundamente a história da arte cristã.

Durante a entrevista, Posenato afirmou que a riqueza cultural e espiritual do passado constitui um patrimônio fundamental para os artistas contemporâneos.

Segundo ele, a busca pela inovação não deve levar ao esquecimento das tradições que ajudaram a construir a identidade artística da Igreja.

O mosaicista defendeu que o conhecimento das técnicas antigas pode ser combinado com materiais e recursos modernos, permitindo a criação de obras contemporâneas profundamente enraizadas na história cristã.

Para Posenato, uma obra produzida atualmente continua sendo contemporânea, mesmo quando sua linguagem estética encontra inspiração na arte romana ou bizantina.

Essa compreensão permite superar a oposição entre tradição e modernidade, reconhecendo que a herança artística da Igreja pode continuar oferecendo caminhos para novas expressões da fé.

A importância da harmonia entre os elementos da igreja

Ao longo da conversa, Rodrigo Mazutti apresentou uma questão prática relacionada à instalação de mosaicos em igrejas que já possuem características arquitetônicas definidas.

O jornalista mencionou um mosaico de sua paróquia, São João Batista, em Campinas, e questionou como o artista avalia a relação entre uma obra individual e o conjunto do espaço religioso.

Leonardo Posenato explicou que a instalação de um mosaico exige uma análise cuidadosa das proporções, das cores, do estilo arquitetônico e da disposição dos elementos litúrgicos.

Segundo ele, antes de desenvolver uma obra, é necessário compreender as dimensões do presbitério e as características do ambiente no qual ela será instalada.

O artista ressaltou que uma imagem pode ser bela isoladamente e, ainda assim, apresentar problemas quando inserida em um espaço para o qual não foi adequadamente planejada.

Por essa razão, defendeu a importância de um projeto litúrgico e arquitetônico que oriente a atuação dos diferentes profissionais envolvidos.

Na avaliação de Posenato, arquitetos, mosaicistas, iconógrafos e especialistas em liturgia devem trabalhar de maneira integrada, evitando intervenções desconectadas que prejudiquem a unidade visual e simbólica do templo.

Irmã Jeydjane Gomes: a arquitetura a serviço da celebração da fé

A entrevista também contou com a participação da Irmã Jeydjane Gomes, religiosa das Irmãs Pias Discípulas do Divino Mestre e integrante da equipe de Arquitetura do Apostolado Litúrgico.

Formada em Arquitetura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, a religiosa atua na elaboração de projetos de construção e reforma de igrejas, tendo como referência os fundamentos teológicos e litúrgicos da tradição católica.

Durante a conversa, Irmã Jeydjane explicou que o planejamento de um espaço sagrado deve começar pela compreensão daquilo que a Igreja celebra.

Segundo ela, a arquitetura religiosa possui uma finalidade própria, que ultrapassa as exigências funcionais de uma construção convencional.

O espaço litúrgico deve favorecer a oração, a participação dos fiéis e a celebração dos sacramentos, especialmente da Eucaristia.

A religiosa destacou que a concepção arquitetônica e o programa iconográfico precisam estar profundamente relacionados.

Isso significa que mosaicos, imagens e demais elementos artísticos não devem ser tratados simplesmente como acréscimos decorativos, mas como partes de um conjunto concebido para expressar a fé da comunidade.

Para Irmã Jeydjane, o ideal é que os profissionais responsáveis pela arquitetura e pela arte sacra participem conjuntamente das etapas iniciais de planejamento.

Dessa maneira, cada especialidade pode contribuir para a construção de um espaço harmonioso, respeitando tanto as características arquitetônicas quanto as exigências da celebração litúrgica.

O Concílio Vaticano II e o retorno às fontes cristãs

Outro tema importante da entrevista foi a influência do Concílio Vaticano II sobre a arquitetura e a arte sacra contemporâneas.

Irmã Jeydjane explicou que a renovação conciliar incentivou uma redescoberta das fontes mais antigas da tradição cristã, contribuindo para uma compreensão mais profunda dos espaços destinados à liturgia.

A religiosa destacou que esse retorno às origens também orienta o trabalho desenvolvido pelo Apostolado Litúrgico.

O objetivo não é simplesmente reproduzir formas antigas, mas compreender os fundamentos espirituais e teológicos que deram origem às diferentes expressões da arte cristã.

Leonardo Posenato também relacionou essa perspectiva à sua própria produção artística, especialmente à valorização da iconografia antiga e à centralidade de Cristo nos espaços celebrativos.

Durante a conversa, o mosaicista defendeu que as intervenções artísticas no presbitério devem manifestar claramente a centralidade de Cristo na liturgia, evitando que a devoção aos santos obscureça essa referência fundamental.

A reflexão foi apresentada a partir de sua experiência profissional e de sua interpretação dos princípios da renovação litúrgica.

A Igreja Católica não impõe um único estilo artístico

Um dos pontos mais relevantes da participação de Irmã Jeydjane foi a reflexão sobre a diversidade dos estilos arquitetônicos e artísticos na história da Igreja.

A religiosa recordou o ensinamento da constituição conciliar Sacrosanctum Concilium, segundo o qual a Igreja não considera nenhum estilo artístico como exclusivamente seu.

Esse princípio, presente no número 123 do documento, reconhece a contribuição das diferentes culturas e épocas para a formação do patrimônio artístico cristão.

Dessa maneira, uma igreja construída no século XVIII pode apresentar características distintas de outra edificada no século XX ou XXI, sem que essa diferença represente necessariamente uma oposição à tradição católica.

Para Irmã Jeydjane, o desafio dos profissionais consiste em compreender a identidade de cada templo e desenvolver intervenções que respeitem sua linguagem arquitetônica.

A religiosa explicou que uma igreja de características contemporâneas pode receber obras inspiradas em tradições antigas, desde que exista sensibilidade artística e coerência entre os elementos.

Da mesma forma, intervenções realizadas em templos históricos exigem atenção especial para que novas obras não comprometam a unidade do conjunto.

O princípio fundamental, segundo ela, é que a arte e a arquitetura contribuam para a dignidade da celebração da fé.

O mosaico como expressão da tradição e da beleza cristã

Ao falar sobre sua produção, Leonardo Posenato destacou que o mosaico constitui uma linguagem artística especialmente significativa para a tradição cristã.

Presente em importantes basílicas e monumentos religiosos desde os primeiros séculos do cristianismo, essa técnica permite desenvolver composições de grande riqueza visual e simbólica.

As referências romanas, bizantinas e medievais, frequentemente utilizadas pelo artista, apresentam diferentes possibilidades de representar Cristo, os santos e os mistérios da fé.

Posenato explicou que a escolha de uma linguagem artística deve considerar o contexto arquitetônico da igreja e o significado litúrgico da obra.

Assim, um mosaico inspirado na tradição bizantina pode ser desenvolvido de maneira a dialogar com um espaço contemporâneo, mediante adaptações de proporção, composição e cores.

A experiência do artista demonstra como técnicas tradicionais podem continuar presentes na produção de arte sacra atual, sem que isso signifique uma simples reprodução do passado.

A importância do trabalho conjunto entre arquitetos e artistas sacros

Durante a entrevista, Rodrigo Mazutti perguntou aos convidados sobre a possibilidade de colaboração entre o trabalho desenvolvido pelo Apostolado Litúrgico e a produção artística de Leonardo Posenato.

Embora tenham esclarecido que ainda não haviam realizado um projeto conjunto, ambos destacaram a importância da integração profissional.

Irmã Jeydjane explicou que o programa iconográfico deve nascer em sintonia com o projeto litúrgico e arquitetônico geral.

Em algumas situações, a definição das imagens ocorre posteriormente à concepção do espaço. Entretanto, segundo a religiosa, a participação conjunta dos profissionais desde o início pode proporcionar resultados mais coerentes.

Essa integração permite que a arquitetura, a iconografia e os elementos litúrgicos sejam concebidos como partes de uma mesma proposta.

Para os entrevistados, a formação especializada e o conhecimento da tradição da Igreja são essenciais para que os projetos atendam adequadamente às necessidades das comunidades.

A beleza que convida à oração

Na parte final da entrevista, Irmã Jeydjane destacou que o objetivo fundamental da arquitetura sacra é proporcionar um lugar digno para a celebração da Eucaristia e dos demais sacramentos.

A religiosa explicou que a disposição dos elementos, a qualidade das imagens e a harmonia do espaço podem contribuir para a experiência espiritual dos fiéis.

Rodrigo Mazutti recordou uma reflexão apresentada pela professora Wilma Tommaso, durante outra entrevista realizada no evento, sobre a capacidade que determinados espaços sagrados possuem de despertar uma atitude de oração.

O Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida foi mencionado como exemplo de um ambiente cuja arquitetura e arte podem favorecer o recolhimento espiritual.

A observação reforçou uma das ideias centrais da conversa: a beleza de uma igreja não constitui apenas uma preocupação estética, mas também pode desempenhar uma função pastoral e evangelizadora.

Quando concebidos com conhecimento, sensibilidade e respeito à liturgia, os espaços religiosos podem ajudar os fiéis a contemplar os mistérios da fé.

Tradição e contemporaneidade a serviço da Igreja

A entrevista com Irmã Jeydjane Gomes e Leonardo Posenato apresentou uma reflexão sobre os caminhos da arte sacra brasileira e a importância de conciliar tradição, criatividade e responsabilidade litúrgica.

Enquanto o mosaicista destacou a riqueza das antigas expressões artísticas cristãs e sua capacidade de inspirar novas obras, a religiosa ressaltou a necessidade de compreender a arquitetura como parte integrante da celebração da fé.

As contribuições dos entrevistados demonstraram que a preservação da tradição e a utilização de linguagens contemporâneas não precisam representar caminhos opostos.

Ao contrário, ambas podem contribuir para a construção de igrejas que respeitem a história do cristianismo e, ao mesmo tempo, dialoguem com as comunidades de hoje.

Mais do que reunir obras de arte em um edifício religioso, a arquitetura sacra possui a missão de criar espaços nos quais a beleza, a liturgia e a espiritualidade estejam em harmonia, ajudando os fiéis a encontrar, também por meio das imagens e das formas, um caminho de aproximação com Deus.

Reportagem baseada na entrevista concedida pela Irmã Jeydjane Gomes, PDDM, e pelo arquiteto e mosaicista Leonardo Posenato ao jornalista Rodrigo Mazutti, durante o III OPUS — Feira e Seminário de Construção e Arquitetura Religiosa, realizado em Campinas (SP), em outubro de 2026.

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