Frei Vagner Sanagiotto destaca a importância da saúde mental para religiosos e sacerdotes
Psicólogo, teólogo e doutor pela Universidade Pontifícia Salesiana de Roma defende que o cuidado psicológico fortalece a vocação e contribui para uma Igreja mais saudável.
A saúde mental precisa ocupar um lugar central na formação e na vida de padres, religiosos e religiosas. Essa foi a principal mensagem de Frei Vagner Sanagiotto, O.Carm., psicólogo, teólogo, doutor pela Universidade Pontifícia Salesiana de Roma e autor de 14 livros sobre comportamento humano e formação religiosa, durante entrevista concedida ao programa Megafone, da Rádio e TV Fé e Luz.
Ao longo da conversa, Frei Vagner compartilhou sua trajetória vocacional e acadêmica, mostrando como sua missão sacerdotal passou a caminhar lado a lado com o estudo da psicologia, especialmente voltado ao acompanhamento da vida religiosa consagrada.
Segundo ele, toda vocação nasce de uma profunda experiência com Deus e amadurece ao longo da vida por meio do discernimento, da escuta e do acompanhamento.
"Percebi que meu chamado não era apenas para a vida religiosa, mas também para compreender profundamente a pessoa humana e ajudar padres, religiosos e religiosas em seus processos de crescimento e cuidado."
Formação internacional a serviço da Igreja
Após concluir seus estudos de Filosofia, Teologia e Psicologia no Brasil, Frei Vagner realizou mestrado e doutorado na Universidade Pontifícia Salesiana de Roma, onde aprofundou suas pesquisas sobre saúde mental no contexto da vida religiosa consagrada e presbiteral.
Durante sua permanência na Itália, conviveu com estudantes de mais de cem países, experiência que ampliou sua compreensão sobre diferentes culturas e formas de viver a fé.
Segundo o religioso, essa formação internacional permitiu integrar o rigor científico da psicologia com o respeito à dimensão espiritual, sem confundir os papéis de cada área.
"A fé oferece sentido e abertura ao transcendente. A psicologia oferece caminhos concretos para compreender e elaborar o sofrimento humano. Elas não competem entre si; elas se complementam."
Cuidar da saúde mental fortalece a vocação
Um dos pontos centrais da entrevista foi o combate ao preconceito ainda existente em relação ao acompanhamento psicológico dentro da Igreja.
Frei Vagner afirmou que, embora atualmente haja maior abertura para o tema, ainda existem pessoas que interpretam a busca por ajuda psicológica como sinal de fraqueza.
Para ele, ocorre justamente o contrário.
"Quem busca ajuda não demonstra fraqueza. Demonstra responsabilidade consigo mesmo, com sua vocação e com o povo que serve."
O religioso explicou que problemas como ansiedade, depressão, estresse ou síndrome de burnout não são consequência de falta de fé, mas questões humanas que precisam ser acolhidas com seriedade e tratamento adequado.
Uma Igreja que também cuida de quem cuida
Ao longo de sua atuação profissional, Frei Vagner dedica grande parte do tempo ao atendimento clínico de padres, religiosos, religiosas e leigos, além de ministrar cursos de pós-graduação, assessorias para dioceses e congregações e desenvolver pesquisas científicas sobre saúde mental.
Seu trabalho também inclui a formação de futuros formadores da vida religiosa, oferecendo ferramentas para que a dimensão humana seja considerada um elemento essencial no discernimento vocacional.
Entre suas obras, destacou o livro "Psicodiagnóstico na Formação à Vida Religiosa Consagrada e Presbiteral", considerado por ele um dos trabalhos mais significativos de sua carreira e indicado a premiações acadêmicas.
A publicação apresenta critérios psicológicos que podem auxiliar formadores e psicólogos no acompanhamento vocacional, favorecendo processos mais maduros e equilibrados.
Superar o estigma
Durante a entrevista, Frei Vagner chamou atenção para um desafio ainda presente em muitas comunidades: a ideia de que padres e religiosos, por estarem próximos de Deus, não poderiam adoecer emocionalmente.
Segundo ele, essa visão acaba dificultando a procura por ajuda especializada.
"Muitas vezes se cria a imagem de que o padre é um super-herói que não sofre. Mas ele também é humano. Quando está bem cuidado emocionalmente, desenvolve melhor seu ministério e toda a comunidade é beneficiada."
Para o psicólogo, incentivar o cuidado psicológico é uma forma concreta de fortalecer a missão evangelizadora da Igreja.
Formação humana e fidelidade vocacional
Ao falar sobre o futuro da formação presbiteral e religiosa, Frei Vagner defendeu que a saúde mental seja considerada parte integrante da formação dos novos vocacionados.
Segundo ele, não é possível sustentar uma vocação ao longo da vida sem equilíbrio emocional e maturidade afetiva.
"Investir na saúde mental é investir em vocações mais livres, conscientes, maduras e sustentáveis."
Mensagem aos religiosos
Ao concluir a entrevista, Frei Vagner dirigiu uma mensagem especial aos padres, religiosos e religiosas que enfrentam momentos difíceis.
Ele incentivou aqueles que sofrem em silêncio a não caminharem sozinhos e a procurarem ajuda profissional quando necessário.
"O sofrimento não precisa ser vivido no isolamento. Buscar ajuda não diminui a vocação; é um gesto de responsabilidade consigo mesmo e com a missão que Deus confiou. Cuidar de si também é uma forma de permanecer fiel ao chamado."