Marco Frisina e mil vozes marcam encontro histórico da música litúrgica em Campinas
Congresso reuniu coros, regentes e formadores em torno de uma missão comum: preservar a tradição da Igreja, formar novas gerações e fazer da música um verdadeiro instrumento de oração
Publicado em 29/08/2026 13:44 • Atualizado 29/08/2026 16:22
Mil vozes reunidas em Campinas em torno da música litúrgica e uma das maiores referências contemporâneas da música sacra católica à frente delas: Monsenhor Marco Frisina, sacerdote, compositor e fundador e diretor do Coro da Diocese de Roma.
Mais do que a dimensão musical de um grande encontro coral, essa imagem ajuda a sintetizar o que representou o 1º Congresso Internacional de Coros Litúrgicos, que aconteceu na matriz da Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora, Liceu Salesiano de Campinas, SP. O evento reuniu músicos, regentes, pesquisadores, religiosos e agentes de pastoral de diferentes partes do Brasil e da América Latina em torno de uma questão que permanece depois do encerramento do congresso: como formar uma nova geração de músicos capaz de servir à liturgia sem romper com a tradição musical da Igreja?
A resposta construída em Campinas passou pela experiência internacional de Marco Frisina, pela formação e pesquisa desenvolvidas pelo Professor Dr. Clayton Dias e pela contribuição do Maestro Danillo Del Chiaro à música destinada concretamente à celebração e à participação da assembleia.
O resultado foi um encontro no qual tradição e renovação não foram apresentadas como forças opostas, mas como partes de uma mesma responsabilidade: fazer com que a música da Igreja permaneça bela, acessível, orante e capaz de atravessar gerações.
Marco Frisina: uma música que não envelhece
A presença de Monsenhor Marco Frisina colocou Campinas em contato direto com uma trajetória profundamente ligada à música da Igreja.
Sacerdote da Diocese de Roma, compositor, biblista e fundador do Coro da Diocese de Roma, Frisina possui uma produção de música litúrgica difundida internacionalmente e traduzida para diversos idiomas. Em Campinas, entretanto, sua presença não se limitou à execução de suas obras. O compositor colocou em discussão o próprio significado de escrever música para a liturgia.
Em entrevista realizada durante o congresso, Frisina foi questionado sobre um dos debates mais delicados da música católica contemporânea: até onde pode ir a renovação sem que a música perca seu caráter propriamente litúrgico?
Sua resposta começou fazendo uma distinção importante. O problema, segundo ele, não está simplesmente em “ir além”, mas em sair do próprio sentido da música litúrgica.
Frisina comparou o trabalho do compositor ao equilíbrio necessário na preparação de um alimento. Assim como sal demais pode arruinar uma receita, a busca excessiva por determinados efeitos ou por uma linguagem excessivamente ligada ao pop pode comprometer aquilo que a composição deveria realizar dentro da celebração.
Para o sacerdote e compositor, existe ainda outra distinção essencial:
“A participação do povo no canto não significa que o compositor deve perseguir a moda do momento.”
A participação da assembleia, portanto, não exige que a Igreja simplesmente reproduza a linguagem musical que esteja em evidência em determinado período. Frisina defende critérios capazes de produzir uma música mais universal — inclusive uma música que possa continuar sendo cantada cinquenta anos depois.
Essa talvez seja uma das reflexões mais importantes deixadas por sua passagem pelo congresso.
Frisina contou que ainda se surpreende ao encontrar jovens cantando composições suas escritas décadas atrás. Para ele, é equivocada a ideia de que as novas gerações necessariamente desejem encontrar dentro da Igreja algo semelhante ao que escutam no ambiente do entretenimento.
“Eles querem algo que os faça rezar. É isso que deve ser compreendido.”
Como exemplo, recordou uma missa em latim que compôs para a JMJ. Apesar da linguagem clássica, a obra foi bem recebida pelos próprios jovens. A experiência reforça sua compreensão de que renovar não significa perseguir constantemente a novidade estética, mas oferecer algo novo e belo cujo conteúdo seja suficientemente forte para atravessar o tempo.
Em Campinas, essa ideia ganhou também uma dimensão concreta por meio do encontro de sua obra com coros brasileiros e da experiência de mil vozes.
Clayton Dias: formar a geração que continuará cantando
Se Frisina trouxe ao congresso uma experiência construída ao longo de décadas de composição e serviço à Igreja, o Professor Dr. Clayton Dias representa uma das bases sobre as quais esse legado pode continuar sendo transmitido no Brasil: a formação.
Maestro, musicólogo e pesquisador dedicado especialmente à música sacra e ao canto gregoriano, Clayton construiu em Campinas parte fundamental de sua trajetória acadêmica. Depois dos estudos de Regência, realizou graduação, mestrado e doutorado na Unicamp e ampliou sua formação com pesquisas em países como Portugal, Itália e Suíça, aprofundando-se especialmente no canto gregoriano e nos manuscritos litúrgicos medievais.
Essa formação também moldou sua compreensão de tradição.
Ao recordar suas pesquisas no exterior e o contato direto com manuscritos e documentos históricos, Clayton afirmou ter compreendido que a tradição da Igreja não deve ser tratada como uma peça de museu.
“A tradição da Igreja não é algo que fica no passado. É uma realidade viva, transmitida de geração em geração e celebrada com fé na liturgia.”
Para ele, conhecimento acadêmico, histórico e técnico não constitui um fim em si mesmo: deve ajudar a Igreja a rezar melhor, formar seus músicos e preservar com inteligência e sensibilidade o patrimônio recebido.
Foi justamente uma necessidade de formação mais ampla que ajudou a dar origem ao congresso.
“Esse projeto nasceu do desejo de oferecer aos corais, regentes, músicos e também aos agentes de pastoral litúrgica um espaço de formação, intercâmbio e renovação.”
Segundo Clayton, muitas comunidades possuem grupos que trabalham com dedicação, mas nem sempre encontram acesso a uma formação que reúna técnica musical, conhecimento litúrgico e espiritualidade. O congresso buscou responder a essa lacuna e, ao mesmo tempo, reforçar que a música litúrgica deve ser tratada com “seriedade, beleza e sentido eclesial”.
Sua visão, porém, ultrapassa o próprio congresso.
Ao falar sobre suas pesquisas, livros, traduções, partituras, gravações, cursos e outros projetos dedicados à música da Igreja, Clayton projetou o resultado desse trabalho para um horizonte muito mais distante:
“A gente vai deixando um legado, mas um legado que não é um legado pessoal, mas um legado para a própria Igreja. Daqui cinquenta, cem anos, as pessoas vão ver aquilo que fizemos e poderão ainda cantar essas músicas.”
Para ele, uma geração pode deixar para outra não apenas composições, mas instrumentos de formação: livros que continuarão sendo estudados, cursos que poderão continuar preparando músicos e partituras que permanecerão disponíveis para novos coros.
É uma visão de legado que transforma formação em continuidade.
Danillo Del Chiaro: quando a beleza também pertence à assembleia
A terceira dimensão desse legado aparece no trabalho do Maestro Danillo Del Chiaro: a aplicação prática da música à própria celebração.
Se a música litúrgica deve preservar sua identidade e, ao mesmo tempo, permitir a participação do povo, a composição precisa nascer consciente de sua função.
Ao apresentar o trabalho árduo que o grupo, acompanhado por Clayton Dias, desenvolveu, Del Chiaro destacou justamente músicas pensadas para serem executadas dentro da liturgia e capazes de serem assumidas não apenas por formações especializadas, mas também pelas comunidades.
“fácil de cantar, a assembleia pode cantar, qualquer coro pode cantar.”
Para o maestro, acessibilidade não significa pobreza musical. Uma composição pode ser simples, bonita e bem construída sem se tornar artificialmente complicada. A música precisa cumprir aquilo para o qual foi criada.
Essa distinção leva Del Chiaro a um ponto fundamental:
“A música ideal para a Santa Missa é a música litúrgica, ela foi pensada para a liturgia.”
Sua contribuição em "Os cantos dos ministros e da assembleia do Missal Romano" também materializa essa preocupação. Del Chiaro relatou a produção de um extenso material de mais de 400 páginas, elaborado por uma equipe e concebido para oferecer possibilidades musicais às diferentes partes da celebração, incluindo opções em tom simples e solene.
Detalhe: até então, somente o próprio Missal em latim dispunha desse material. Com esta publicação, o português passa a ser a única língua vernácula a contar com esse conteúdo.
A tradição precisa permanecer viva. A formação precisa preparar quem a transmitirá. E a composição precisa estar efetivamente a serviço da liturgia e da oração do povo.
Um encontro que ultrapassou fronteiras
A dimensão internacional do congresso não ficou restrita à presença de Marco Frisina.
A organização recebeu participantes provenientes de todas as regiões brasileiras e também de outros países da América Latina.
A presença de músicos de realidades tão diferentes mostrou uma consequência importante da formação realizada em Campinas: aquilo que foi discutido e experimentado durante o congresso não permaneceria necessariamente na cidade.
Cada participante poderia retornar à própria comunidade levando consigo repertório, conhecimento e novas referências para o trabalho pastoral.
De Campinas ao Ceará: aquilo que os participantes levam para casa
Entre esses participantes estava Irmã Elisabete, das Irmãs Filhas da Misericórdia, que viajou de Fortaleza, no Ceará, para participar do congresso.
Formada em Música, pós-graduada em Música Sacra Litúrgica e regente de coral, a religiosa descreveu o encontro com Monsenhor Marco Frisina como a realização de um sonho. Mas sua fala revelou principalmente o impacto espiritual da formação recebida.
“Monsenhor Marco falou muito sobre a importância da música, como a música expressa o mais profundo do ser humano e que não há nada mais profundo que o amor.”
Ao recordar a máxima atribuída a Santo Agostinho, de que cantar é próprio de quem ama, Irmã Elizabete relacionou aquilo que ouviu no congresso à missão que continuará exercendo em sua comunidade.
Para ela, cantar é uma maneira de expressar o amor a Deus não apenas através da música, mas através da própria vida.
Seu testemunho oferece uma medida concreta do alcance do encontro: Campinas formou pessoas que agora levam aquilo que receberam de volta às suas próprias comunidades.
Mil vozes, mas uma mesma missão
A imagem de cerca de mil vozes reunidas impressiona pela dimensão sonora. Sob a presença e a condução de Marco Frisina, o congresso ofereceu uma experiência rara de comunhão entre músicos provenientes de realidades distintas.
Mas números, por maiores que sejam, não explicam sozinhos o significado do encontro.
O legado mais profundo aparece justamente naquilo que Monsenhor Marco Frisina, Professor Dr. Clayton Dias e Maestro Danillo Del Chiaro defendem a partir de perspectivas complementares.
Com Frisina, permanece a ideia de que renovar não significa perseguir a moda. Uma composição verdadeiramente litúrgica deve ser nova e bela sem perder aquilo que permite que continue conduzindo à oração quando o estilo dominante de uma época já tiver desaparecido.
Com Clayton, permanece a responsabilidade da transmissão. Pesquisa, livros, cursos, partituras e formação não existem apenas para a geração presente. São maneiras de entregar à Igreja de amanhã aquilo que foi estudado e construído hoje.
E com Danillo, essa herança chega concretamente ao altar e à assembleia: a música litúrgica precisa ser cantável, bela e funcional, permitindo que o povo participe sem que a qualidade musical seja sacrificada.
Três perspectivas que convergem para a mesma missão: preservar, formar e fazer cantar.
Talvez por isso a imagem mais duradoura do Congresso Internacional de Coros Litúrgicos não seja apenas a de mil pessoas cantando ao mesmo tempo.
É a possibilidade de que, daqui a cinquenta ou cem anos, outras mil vozes ainda possam cantar aquilo que esta geração decidiu preservar, estudar, compor e transmitir.
E é nesse horizonte, muito além de um único congresso, que a presença de Monsenhor Marco Frisina em Campinas encontra seu significado mais profundo: não apenas reger mil vozes por alguns dias, mas ajudar a formar uma cultura musical capaz de fazer com que a Igreja continue cantando quando essas vozes já pertencerem a uma nova geração.